Os marinheiros, em uma revolta que ia muito além da Chibata... por Cesar Augusto Loitzenbauer
“Sobre o levante da marinhagem, felizmente acabado, parece que o melhor é nada mais dizer. O país só tem a lucrar com o silêncio geral sobre esse fato. Na vida dos povos, como na dos indivíduos, há lembranças que se desejaria apagar de todo, pela tristeza, pelo vexame, pela aflição que despertam. Para o Brasil, a revolta dos marujos é uma delas. Não se pense mais nessa vergonha ou nesse infortúnio.” O País, Rio de Janeiro-28 de novembro de 1910
Neste mês completam-se 99 anos de um dos mais significativos episódios da história dita republicana de nosso país; que no entanto, permanece mal conhecido, mal compreendido e mal refletido. Onde a mentalidade, bem exemplificada pelo jornal: O País, logo após o ocorrido, parece permanecer ao longo de quase um século, seja pela “ausência” de documentação do arquivo da Marinha, ou pela seleção que quando não a exclui totalmente dos currículos escolares oficiais, a trata somente como uma revolta contra os maus tratos, as chibatadas a que eram submetidos os marinheiros, sendo o movimento iniciado na noite de 22 de novembro de 1910, uma consequência direta e única de tal prática. A Marinha do Brasil, no início do século XX, se mostrava como uma solução tanto para a República – recém instaurada, quanto para os negros “livres” desde 1888, como colocou muito bem, Paulo Ricardo de Moraes, através da expressão:”-Da senzala para a Marinha”. A relação era estabelecida pelo trabalho fatigante, mal remunerado, alimentação de baixa qualidade e castigos físicos impostos nos navios de guerra, que eram justificados pela oficialidade naval,: “...pela recente experiência escrava, quanto pelos hábitos de suas comunidades africanas de origem”, conforme relatado no livro de Marcos A. da Silva . Os negros e mulatos sujeitavam-se a este estado de coisas, justamente por estarem totalmente excluídos da nova sociedade que se formava, não restando-lhes outra opção ao término de um regime escravocrata , que não lhe propiciou uma inserção em outros setores; além do que, a Marinha era vista como uma espécie de “grande reformatório social”, ou melhor: “depósito” dos excluídos sociais, pois eram acolhidos além dos negros e mulatos, bêbados, bandidos, vagabundos, ou aqueles que eram assim taxados por uma sociedade marcadamente influenciada pelo ideário positivista. Paradoxo interessante nos destaca Mário Maestri, em seu livro de nome também bastante interessante: Cisnes Negros-Uma História da Revolta da Chibata: “...Os navios eram o que havia de melhor, no século apenas iniciado; as condições de vida e trabalho da maruja assemelhavam-se às dos navios tumbeiros dos tempos do tráfico”; pois isto evidenciava a melhor tecnologia de então, convivendo com um atraso atroz. Estes encouraçados, os “dreadnoughts” puderam chegar ao Brasil, por uma confluência de dois ciclos econômicos: o do café e o da borracha, diretamente responsáveis pela riqueza do país, entenda-se de parte da elite deste país. Comprados na Inglaterra; nossos marinheiros foram acompanhar nos estaleiros de “Vossa Majestade” a fase final da construção das belonaves e lá tiveram contato com um proletariado estruturado; um forte movimento sindical que conforme alguns autores, apresentava elementos muito nítidos do ideário socialista, chegando a conhecer o episódio do encouraçado Potemkim, o maior navio de guerra do Império Russo (1905), onde marinheiros rebelaram-se não só contra seus oficiais, como com toda a ordem Czarista, sendo portanto, vinculado em uma analise processual, a posterior Revolução Russa desencadeada em 1917; sendo atribuído a estes fatores uma importante influência nos acontecimentos de 1910, no Rio de Janeiro; o que no meu entendimento é uma mera e “engajada” suposição . A revolta que é o objeto deste breve escrito, inicia-se logo após a vitória dos “militaristas” representados na presidência por Hermes da Fonseca, sobre os “civilistas” cujo candidato à presidência era Rui Barbosa , em uma acirrada disputa, que de certa forma dividiu a classe dominante brasileira; o discurso antimilitarista dos civilistas ganhava um sentido maior para os marinheiros, reforçando a legitimidade de suas reivindicações, tais discursos não criaram as condições objetivas para a revolta, afinal as mesmas foram construindo-se ao longo de toda a história brasileira, mas contribuíram no que tange as condições subjetivas, reunindo assim necessidade e vontade. Na noite de 22 de novembro de 1910, por motivos que iam muito além das duas garrafas de cachaça com que o marinheiro Marcelino buscava entrar no encouraçado Minas Gerais e da pena de 250 chibatadas a ele imposta, eclodiu a Revolta dos Marinheiros Negros, ao invés de Revolta da Chibata, como prefere nomeá-la o historiador já citado, Mário Maestri. Os principais navios da esquadra brasileira, estavam em pouco tempo sob o controle dos revoltosos, ao largo da Baía da Guanabara a observar a Capital Federal, de então. O “Comandante-Geral” era o marinheiro João Cândido; começava a se construir o mito do Almirante Negro*. As negociações avançaram e quatro dias após o início do movimento, os marinheiros crendo no acordo firmado com as autoridades constituídas, entregaram o comando dos navios aos oficiais; o que se seguiu foi a perseguição com a expulsão sumária da Marinha para a maioria dos envolvidos; o “degredo” para a região amazônica, onde os seringais os aguardavam; ou a execução . Ilustra bem o aqui exposto, o caso do navio Satélite, onde 66 marinheiros, 31 soldados de infantaria, 45 mulheres da casa de detenção e mais operários, servidores públicos simpáticos a revolta acabaram sendo assassinados com requintes de crueldade, como cal sendo jogado nos porões e a negativa da oferta de água, outros foram escravizados e as mulheres em sua maioria tornaram-se prostitutas. O regime republicano não sepultou os males da Monarquia, como se propunha. A exclusão social, desembocando na econômica, acrescida do elemento racial; fomentaram as insustentáveis condições que fizeram emergir a Revolta dos Marinheiros, que mesmo tendo influenciado na abolição dos castigos físicos impostos nos navios de guerra, dotando o trabalho dos marinheiros de soldo regular e uma melhor alimentação; deve ser entendida não apenas como um movimento dos “homens do mar”, mas dos vários setores não contemplados na República Velha, e que tem suas condições reais pouco alteradas na atualidade. Nas palavras do Almirante Negro: “-A dignidade tem preço!” Frase que ecoou no convés do encouraçado Minas Gerais, naquele distante novembro... E continua ecoando e redobrada em seu significado nos dias atuais, para alguns poucos...Devemos muito, a esses marujos negros e mulatos, que a história não pode esquecer ou “pasteurizar”**., que em determinado momento ousaram questionar, toda uma estrutura montada para fazê-los, não só marinheiros de 2ª Classe, mas igualmente, cidadãos de 2ª Classe!
*Tanto o movimento, quanto a própria figura de João Cândido foram apropriados por setores da esquerda brasileira, atribuindo-lhes uma luta que não era necessariamente socialista e é bom lembrar que João Cândido que terminou sua vida, vendendo peixes para sobreviver, nos anos 30 militou na Ação Integralista Brasileira (AIB) e nos anos 60, deu declarações bem positivas sobre o regime civil-militar instaurado em 1964. **Conceito da historiadora Anita Leocádia Prestes, sobre a busca da preservação de uma memória interessante a algo e não plena, feita por jornalistas, sociólogos e até historiadores. Tornando lutas históricas, como aventuras ou histórias bonitas e simpáticas aos mais variados segmentos sociais, retirando-lhes os elementos a serem identificados e interessantes somente a classes mais populares, diluindo assim seu potencial transformador e a tomada de consciência das massas.
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Há muito tempo nas águas Da guanabara O dragão no mar reapareceu Na figura de um bravo Feiticeiro A quem a história Não esqueceu Conhecido como Navegante negro Tinha a dignidade de um Mestre-sala E ao acenar pelo mar Na alegria das regatas Foi saudado no porto Pelas mocinhas francesas Jovens polacas e por Batalhões de mulatas Rubras cascatas jorravam Das costas Dos santos entre cantos E chibatas Inundando o coração, Do pessoal do porão Que a exemplo do feiticeiro Gritava então Glória aos piratas, às Mulatas, às sereias Glória à farofa, à cachaça, Às baleias Glórias a todas as lutas Inglórias Que através da Nossa história Não esquecemos jamais Salve o navegante negro Que tem por monumento As pedras pisadas do cais.
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João Cândido foi apenas o testa de ferro dos marinheiros revoltados, mal sabia a profundidade do fato em que estava envolvido. Com uma educação rudimentar e simplório ele foi usado e sobreviveu por muita sorte.
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Bem, sendo a Marinha do início do período republicano uma extensão das senzalas do período Imperial; onde se pode concluir facilmente que a maioria dos marinheiros eram negros e mulatos, evidentemente analfabetos. Esperar uma grande elocubração, ou consciência política através de debates mais profundos seria fantasioso. Mas, a percepção do quê e por quê ocorria, não fugia aos marinheiros que creio estavam todos num patamar próximo, não necessariamente um grupo manipulando um suposto líder. E aliás, o próprio João Cândido, com sua simplicidade deu declarações interessantes: Nos anos 60, quando da "Revolta dos Marinheiros" teria dito na Assembléia que revolta de marinheiros em terra não poderia dar certo, ou seja sem as armas e será que já não identificou no Cabo Anselmo, o safado que ele realmente era? Me parece que atribuir sempre a parca educação e a simplicidade aos movimentos mais voltados as classes populares seja uma forma de menosprezá-los, de tirár-lhes a devida importância. Mas, indubitavelmente, a figura de João Cândido foi "mitificada" pela esquerda brasileira como apontei em meu texto. Contraditório falar em uma revolta de cunho popular, cuja liderança não está tão à esquerda no espectro político? Talvez não, pois aponto para o erro de João Cândido ser classificado como tal coisa, dentro de certos paradigmas e os feitos dos marinheiros foram fruto de uma condição que fomentou uma ação revolucionária, mas até certo ponto inocente, ao ser acordada a devolução das belonaves aos oficiais que faziam as vezes de feitores; talvez aí tenha feito falta uma discussão mais aprofundada, um conhecimento teórico maior...Mas, quantos que conhecemos, que tem o conhecimento teórico teriam tido a ação?
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