O Chitose, que escolhemos para este GB, faz parte de um tipo de navio pouco conhecido, o porta-hidroaviões (seaplane carrier), muitas vezes confundido com os navios de apoio a hidroaviões (seaplane tenders), mais comuns. Este último tipo executa funções de abastecimento e manutenção de aeronaves, mas não opera um grupo aéreo próprio, como o porta-hidroaviões, cujo perfil operacional é semelhante ao de um porta-aviões. A grande diferença reside na forma de lançar ou recolher as suas aeronaves, colocadas em vôo por meio de catapultas e recuperadas por guindastes, após pousarem na água ao lado do navio.
Os porta-hidroaviões foram um dos meios utilizados pelos japoneses para contornar as limitações em porta-aviões do Tratado de Washington (1922), transferindo para tais navios as atividades de reconhecimento e liberando aqueles para as missões de ataque e defesa aérea. Depois de experiências com dois navios-tanque convertidos, a Marinha Imperial encomendou dois porta-hidroaviões de 11.000 toneladas, dentro do Programa Suplementar de Construção de 1931-1932, capazes de transportar 24 aeronaves cada, para observação de tiro e reconhecimento de longo alcance. Foram os primeiros navios projetados e construídos desde o início como porta-hidroaviões e, quando de sua entrada em operação, eram os mais modernos deste tipo em todo o mundo. A construção do Chitose (nome de uma cidade na ilha de Hokkaido) foi iniciada em 1934 e concluída em 1938. Seu irmão gêmeo, o Chiyoda (título poético do Palácio Imperial em Tóquio) ficou pronto meses depois.
O armamento e as acomodações foram concentrados na parte da frente, seguidos do grupo propulsor, no caso uma combinação pouco comum de turbinas a vapor e motores diesel, e da chaminé. O restante do navio, até a popa, foi dedicado ao manuseio e acomodação dos hidroaviões, nele sobressaindo quatro grandes pilares, unidos no topo por uma plataforma, dando a este navio um perfil inconfundível. Os referidos pilares acomodavam as máquinas de seis dos sete guindastes do Chitose, com o sétimo instalado na popa. A área dedicada aos hidroaviões contava ainda com um complexo sistema de trilhos, para deslocamento das aeronaves em carrinhos, quatro catapultas e um elevador, ligando a sua parte superior com um longo hangar abaixo, no interior do navio.
A seguir temos algumas fotos e um desenho do Chitose, incluindo detalhes da área dedicada ao manuseio dos hidroaviões.
Na classe seguinte (Mizuho), o teto não foi instalado e a chaminé para os motores diesel foi incorporada aos pilares. A seguir uma foto do Mizuho, onde ficam evidentes as diferenças.
Características Técnicas do Chitose.
Início da construção: 26.11.1934, no estaleiro da Marinha Imperial em Kure; Lançado ao mar: 29.11.1936; Concluído: 25.07.1938;
Propulsão: Quatro caldeiras e duas turbinas, gerando 44.000 hp; Dois motores diesel, gerando 12.800 hp;
Hélices: duas;
Velocidade máxima: 29 nós;
Catapultas: quatro;
Guindastes: sete;
Grupo aéreo: 24 hidroaviões;
Armamento:
Dois canhões duplos de 127 mm (5 pol.), para uso geral; Seis canhões antiaéreos duplos de 25 mm.
Grupo Aéreo.
Durante a sua atuação como porta-hidroaviões, o Chitose operou quatro tipos de aeronave, desenvolvidos para duas missões básicas: reconhecimento de longo alcance e observação de tiro, neste último caso auxiliando os couraçados e cruzadores pesados. No caso das aeronaves de observação, elas foram também utilizadas, com freqüência, nas funções de caça, bombardeio e reconhecimento de curto alcance. Encontra-se a seguir um pequeno resumo, uma foto e um filme de curta duração sobre cada um desses tipos.
a. Kawanishi E7K.
Hidroavião monomotor de reconhecimento, biplano, com flutuadores duplos, três tripulantes e autonomia de 12 horas. Entrou em serviço em 1934, com a designação de Hidroavião de Reconhecimento Tipo 94, sendo mais tarde batizado de Alf pelos Aliados.
Hidroavião monomotor de reconhecimento (curto alcance) e observação, biplano, com um flutuador, dois tripulantes e autonomia de 950 km. Entrou em serviço em 1935, com a designação de Hidroavião de Reconhecimento Tipo 95, sendo mais tarde batizado de Dave pelos Aliados.
Hidroavião monomotor de reconhecimento, monoplano, com flutuadores duplos, três tripulantes e expressiva autonomia de 15 horas (2.000 km). Entrou em serviço em 1940, substituindo o E7K Alf, com a designação de Hidroavião de Reconhecimento Tipo 0 (zero), sendo mais tarde batizado de Jake pelos Aliados.
Hidroavião monomotor de reconhecimento (curto alcance) e observação, biplano, com um flutuador, dois tripulantes e autonomia de 750 km. Entrou em serviço em 1940, substituindo o E8N Dave, com a designação de Hidroavião de Observação Tipo 0 (zero), sendo mais tarde batizado de Pete pelos Aliados. Seu excelente desempenho, fruto de um perfil aerodinâmico avançado e limpo, fizeram com que ele fosse utilizado com sucesso nas funções de caça e bombardeiro de mergulho.
No início do conflito no Pacífico, o grupo aéreo do Chitose era composto dos modelos E7K e E8N, logo em seguida substituídos pelos E13A e F1M, utilizados até a sua conversão em porta-aviões.
Operações.
Ao entrar em operação, em 1938, o Chitose foi baseado em Sasebo e no ano seguinte transferido para a base da Marinha Imperial em Truk, nas Ilhas Carolinas, Pacífico Central. Durante 1939 e 1940 ele apoiou a ampliação das instalações aeronavais em Truk, Palau, Saipan, Roi e Kwajalein, transportando pessoal e material de construção. Após este período de grande atividade, seguiram-se revisão e reparos no arsenal de Sasebo, no final de 1940.
Com o agravamento das tensões no Pacífico, o Chitose foi baseado em Palau e, em dezembro de 1941, com a abertura das hostilidades, designado para apoiar a invasão das Filipinas, atuando nos desembarques em Luzon, Davao e Jolo.
Seguiu-se a invasão das Índias Holandesas (Indonésia), em janeiro de 1942, com o Chitose apoiando sucessivos desembarques nas ilhas Célebes, Bornéo e Java, juntamente com o seu meio-irmão Mizuho e o porta-aviões Ryujo. As operações nesta área prosseguiram sem interrupção até março, com os hidroaviões provendo cobertura aérea e apoio às forças em terra. Em 01 de março de 1942, já no final da campanha das Índias Holandesas, os hidroaviões do Chitose localizaram, atacaram e avariaram o destróier norte-americano USS Pope (DD-225). O mesmo seria posteriormente afundado pelos aviões do Ryujo e pelos cruzadores pesados Ashigara e Myoko.
Depois de um breve período de descanso, seguiu-se novo período de intensa atividade, com a invasão da Nova Guiné Holandesa. O Chitose apoiou uma longa seqüência de desembarques, até a conclusão das operações nesta área, no final de abril, quando retornou ao Japão para mais um período de manutenção.
Seguiu-se a operação de Midway, no início de junho de 1942, na qual o Chitose foi incorporado à escolta do grupo de transportes da força de invasão, aquele que foi atacado com torpedos pelos Catalinas de Midway. Com o afundamento dos porta-aviões japoneses encarregados de neutralizar as defesas norte-americanas, a operação foi cancelada e o Chitose retornou ao Japão, para um período de inatividade que durou até agosto de 1942, quando ocorreu o primeiro desembarque dos Aliados em Guadalcanal.
A reação japonesa foi imediata e uma grande esquadra foi reunida em Truk, incluindo o Chitose, que lá chegou em 17 de agosto. Seguiu-se a batalha aeronaval das Ilhas Salomão, em 24 de agosto, o terceiro combate entre porta-aviões da guerra no Pacífico, com o Zuikaku, o Shokaku e o Ryujo de um lado e o Enterprise, o Saratoga e o Wasp do outro. O Chitose, desempenhando as funções para as quais havia sido construído, localizou a principal força-tarefa inimiga (Enterprise e Saratoga) e tentou impedir a atuação dos Catalinas de reconhecimento da US Navy, mas foi localizado e recebeu as atenções de dois bombardeiros de mergulho SBD do Saratoga. A detonação de uma bomba de 500 quilos na água, ao seu lado, deslocou as chapas do casco, danificou os motores e resultou em uma inclinação de 30º. Rebocado pelo destroyer Minegumo, o Chitose chegou a Truk em 28 de agosto, onde recebeu reparos de emergência do navio-oficina Akashi, retornando em seguida ao Japão. Seus hidroaviões foram deixados para trás e incorporados ao efetivo aéreo baseado em terra.
No final de setembro, após os necessários reparos, o Chitose estava de volta a Truk e depois a Rabaul. Em 04 de outubro ocorreu um episódio inusitado, quando os navios japoneses foram atacados por B-17s da USAAF. Um dos F1M Pete do Chitose atingiu deliberadamente um dos quadrimotores, arrancando a sua asa direita e o estabilizador vertical. A B-17 caiu no mar, sem sobreviventes, enquanto os dois tripulantes japoneses pularam de pára-quedas e foram resgatados.
Em 11 de outubro o Chitose, acompanhado de outro porta-hidroaviões, o Nisshin, participou de uma arriscada missão noturna, destinada a levar reforços até Guadalcanal. Enquanto eles desembarcavam sua carga, os cruzadores e destroyers da escolta se envolveram em um feroz combate no escuro com uma força similar norte-americana, naquilo que foi chamado de Batalha do Cabo Esperança. Aproveitando a confusão, o Chitose e o Nisshin conseguiram escapar ilesos.
Em 15 de outubro os hidroaviões do Chitose localizaram um comboio norte-americano transportando suprimentos para Guadalcanal e alertaram o porta-aviões Zuikaku, que navegava perto dali. Este lançou um ataque aéreo, que afundou o destróier USS Meredith (DD-434) e fez os demais navios retornarem.
No início de novembro, depois de um ano de intensa atividade, o Chitose retornou ao Japão, em companhia de seu irmão Chiyoda, para ser recolhido ao estaleiro da Marinha Imperial em Sasebo e convertido em porta-aviões, o que começou a ser feito em 26 de janeiro de 1943.
Daqui em diante a saga do Chitose será contada pelo nosso amigo Pederoda, que vai tratar de sua reencarnação como porta-aviões.
A carreira do Chitose como porta-hidroaviões durou apenas um ano, mas foi caracterizada por uma intensa atividade, que acabou obscurecida pelos feitos dos grandes porta-aviões da Marinha Imperial. Fico feliz com a oportunidade de divulgar este navio pouco conhecido, aproveitando o GB3 de Embarcações da Webkits.
Bibliografia e referências.
a. Warships of the Imperial Japanese Navy 1869-1945, Hansgeorg Jentschura, Dieter Jung & Peter Mickel, US Naval Institute Press, 1986;
b. A Battle History of the Imperial Japanese Navy (1941-1945), Paul S. Dull, US Naval Institute Press, 1978;
c. Aircraft Carriers, David Brown, MacDonald and Jane’s, 1977;
d. Japanese Navy Seaplane Carriers, Model Art Modeling Magazine #22, Model Art Co., 2006;
e. IJN Seaplane Carriers, Maru Special, Japanese Naval Vessels #25, Shio Syobou Co, 1979;
2. Chitose – O modelo da Aoshima na escala 1/700, referência 91.
Escolhi para este GB um kit do consórcio Waterline, no caso o Chiyoda, produzido pelo Aoshima. O kit é idêntico ao Chitose do mesmo fabricante e permite montar qualquer um dos dois navios na configuração de porta-hidroaviões. É também possível montar a versão modificada do Chiyoda, para o transporte de mini-submarinos.
Trata-se de um kit antigo, sem muitos detalhes e com as peças menores moldadas de forma um tanto pesada. O mesmo ainda está em produção, mas melhorado com a adição de duas árvores de peças da Leviathan, fabricadas sob licença pelo consórcio Waterline e que vem sendo incluídas em todos os seus kits. As mesmas podem também ser adquiridas separadamente, inclusive aqui no Brasil, e permitem melhorar de forma significativa esses antigos modelos. Recomendo sem restrições.
Até mesmo os novos kits do consórcio Waterline (new tooling) não dispensam estas árvores adicionais.
Estão a seguir fotos do modelo e da caixa avulsa de acessórios acima mencionada.
Vou utilizar também dois conjuntos em PE, mostrados nas fotos a seguir. Certamente serão utilizados outros acessórios, que apresentarei ao longo da montagem, conforme o caso.
O modelo será montado em uma base de madeira, produzida por este que vos fala, com o mar simulado por meio de massa corrida, tinta acrílica e verniz brilhante, como mostrei nos GBs de Embarcações anteriores.
Bom, agora vou terminar o Ark Royal (GB2), para iniciar em seguida o nosso amigo Chitose.
É o site da Model Warships. Entre no Forum e depois na seção "Calling All Ship Fans". Vai vir uma lista de classes - couraçados, porta-aviões, cruzadores, etc. Escolha aquela que for de seu interesse e entre. Tem muita coisa.
Outra área para visitar é a de "Reviews". Entre e escolha "Ships" na barra da esquerda. Vai aparecer uma relação de escalas e, dentro dela, de fabricantes.
Tem ainda a "Gallery", com os trabalhos da rapaziada que bate ponto por lá. Vale a pena pesquisar, pois é uma fonte de idéias.
Vc já tem algum navio em mente?
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É uma pena, pois certamente teríamos a oportunidade de assistir a um novo show de bola do amigo. De qualquer maneira, é bom saber que vc está na torcida.
Abraços,
Paulo Roberto
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O Shinano é um navio com poucas referências, pois ele foi construído em segredo, afundou logo na primeira viagem e as fotos em arquivo foram quase todas destruídas no final da guerra. Vou ver se acho algo aqui.
Houve uma boa discussão no forum da Model Warships sobre ele, a partir de uma pergunta que eu fiz lá - veja em: